Digerindo monstros

Depoimento voluntário de uma leitora da Sanitário #2:Capa da Sanitário #2

Prefiro relatar algumas experiências ainda com o sangue quente, mesmo correndo o risco da superinterpretação, da falta de distanciamento crítico e da digestão necessária para uma análise. Realmente ainda não deu tempo de digerir. Ainda estão revirando aqui dentro, mexendo sem parar. Não são borboletas no estômago, são monstros.

Sobre a dimensão do conto, Edgar Allan Poe escreveu que, para manter o efeito da unidade de impressão, a obra literária deveria ser de extensão suficiente para ser lida de uma só assentada. Assim foi com a obra que li hoje – não consegui desviar o olhar até virar a última página.

Diante de algumas passagens, fiquei absorta, pensando como são eloquentes e têm ressonâncias na experiência humana: “somos os monstros de nós mesmos”; “talvez não sejam certezas que me fazem falta”; ou quando a mãe doente, em conversa com a filha, afirma fazer certas coisas para aliviá-la, desde já, o sofrimento da perda tão próxima – “para que depois você não tenha do que sentir falta”.

Não, eu não li um romance. Tão pouco um livro de contos, apesar de se tratar de um conjunto de narrativas que podem ser degustadas separadamente, mas, eu recomendo, devem ser lidas em conjunto pela forma como os sentidos que transitam entre elas encaixam-se tão bem.

Nos textos, temas universais, como medo, coragem, amor, liberdade, apego, solidão, morte, ausência, pobreza, aceitação, violência. Pela janelinha da metaficção, remexendo nos arquivos de memória, surgiram diante de mim: a crueldade na morte do índio Galdino, o sensacionalismo dos programas policiais, Gregor Samsa (Kafka), O Grito (Edvard Munch), Godzilla, a Família Addams, o gênero western, o folclore brasileiro, Vidas Secas (Graciliano Ramos), Astroboy, uma referência bíblica (Salmo 91), traços de autoficção.

Ainda atordoada em ver como tudo isso pode ser tratado com humor e criticidade na leveza de uma revista em quadrinhos. Grata, Thiago CA Leal (por muito tempo, meu consultor em língua portuguesa), pelo prazer em conhecer a segunda edição da Revista Sanitário – Grandes Monstros da Humanidade e, consequentemente, o talento de tantos outros quadrinistas locais. Repasse os parabéns ao Coletivo WC. Esperando, ansiosa, pelos próximos números.

Suéllen Rodrigues
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Sobre Coletivo WC

Coletivo de produção e divulgação de webcomics na Paraíba.
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