Artigo de Braulio Tavares em 23/10/2013 no “Jornal da Paraíba”

Imagem

O que leva as pessoas a fazer revistas de quadrinhos? Não rende dinheiro (pelo menos não nos primeiros dez anos). Dá um trabalho enorme, é esnobado por alguns intelectuais, é ignorado pela imprensa… Bastariam estes sintomas para provar que as HQs são uma forma de arte pela arte, feita por gente que descobriu que 1) sabe fazer aquilo; e 2) gosta de fazer aquilo. E isto são condições necessárias e suficientes para fazê-lo.

Sanitário (revista HQ de Campina Grande – http://www.coletivowc.com.br) está cheia desse entusiasmo nos seus roteiristas e ilustradores. Humor, imaginação, uma dose do cinismo e da brutalidade que são “o Espírito do Tempo”, e com os quais temos de conviver, porque os tempos agora são assim. A revista lançou dois números temáticos: 1) “O Mundo Ainda não Acabou” e 2) “Grandes Monstros da Humanidade”. Alguns têm mais técnica; outros, têm idéias mais surpreendentes, mesmo que a técnica ainda seja na base da tentativa.

Em HQ, a idéia é essencial. A história tem que ter interesse, os personagens não podem ser apenas ilustrações do texto. Os diálogos têm que ser uma destilação e concentração do que seria dito, pra não perder tempo. Muitas vezes o cara tem isso, sabe fazer isso, mas não é um grande desenhista. A solução, ao meu ver, é transformar suas limitações em qualidades. Ao invés de tentar desenhar com A ou B, concentrar-se nas virtudes que tem (seja traço, seja enquadramento, seja textura, seja figurativismo bem resolvido… o que for).

No universo brasileiro da HQ, da tirinha, do cartum, existem grandes desenhistas, de técnica refinada: Laerte, Mike Deodato, Mutarelli, Shiko, Rafael Grampá, Fábio Moon & Gabriel Bá… Cada um desenha de um jeito totalmente diferente dos outros, mas todos tem o que em música a gente chama “domínio do instrumento”. Por outro lado, alguns dos melhores quadrinhistas atuais são pessoas que tecnicamente ninguém chamaria de grandes desenhistas: Bruno Maron, Alan Sieber, André Dahmer, além de mestres de uma geração anterior, como os falecidos Henfil e Glauco. Não têm “essas técnicas todas”, mas, por-cima de-pau-e-pedra, cada um criou um estilo pessoal.

Estilo é a tensão entre o que a gente sabe fazer muito bem e o que a gente não consegue fazer de jeito nenhum. Um Henfil não tem a mesma técnica figurativa de um Laerte, mas isso não importa, porque ele é capaz de dizer tudo que quer usando aquilo que tem. Entre a rapaziada do Sanitário há quem domine a técnica “oficial”, há quem esteja inventando uma técnica própria, e há que esteja na encruzilhada entre as duas coisas. É a foto da nuvem, de um momento que não se repetirá, porque cada um irá numa direção diferente.

Fonte: Mundo Fantasmo

Anúncios

Sobre Coletivo WC

Coletivo de produção e divulgação de webcomics na Paraíba.
Nota | Esse post foi publicado em Sanitário. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s